Ouyama

Olár!

Após um longo e tenebroso inverno eis que resolvi retomar as atividades do blog. Para reinaugurar esse espaço de escrita vou falar do super livro Um Jardim Patológico: História do Hospício Nossa Senhora da Luz em Curitiba (1890-1930), de Maurício Ouyama – obra lançada mês passado pela editora Máquina de escrever via lei municipal de incentivo à cultura. Embora o livro tenha sido lançado agora, seu conteúdo começou a ser gestado em 1999 com o trabalho de graduação em História do autor; no decurso de seu doutorado Ouyama deu sequência à pesquisa, a qual foi agora reformulada para o público extra-acadêmico.

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O livro é dividido em 2 volumes, conta com algumas páginas de fotos e ilustrações, e é constituído por um conteúdo denso, rico e extremamente interessante. Ouyama consegue realizar com sucesso a difícil tarefa de elaborar um texto de leve apreensão, sem perder o rigor com que os dados são apresentados.

Um Jardim Patológico nos leva, inicialmente, ao surgimento do alienismo na França do século XVIII, então nos aproxima da recepção e uso dessas ideias no Rio de Janeiro do século XIX e, por fim, à abertura do Hospício Nossa Senhora da Luz em Curitiba em 1903. Utilizando fontes diversas, desde Hegel a Machado de Assis, passando pela imprensa carioca e relatórios internos do “asylo” curitibano, Ouyama desenvolve sua narrativa com cuidado. Por meio de questionamentos acerca da constituição do papel da medicina na sociedade, e o papel da medicina dentro mesmo das instituições psiquiátricas, o autor nos permite desconstruir cânones e ampliar a visão sobre o assunto.

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Nessa direção, o que me pareceu mais interessante em Um Jardim Patológico é a maneira como o conteúdo foi construído, pois podemos vislumbrar os caminhos que o autor percorreu em sua pesquisa para compreender os cenários apresentados. As reminiscências acadêmicas do trabalho, como as notas de rodapé e a própria disposição do texto, de maneira alguma atrapalham a fruição do conteúdo, pois as notas acrescentam informações na medida que o leitor tenha interesse, mas a sua não-leitura não atrapalha a compreensão do livro.

Enfim, trata-se de um prato cheio para aqueles que se interessam pelo tema da doença mental, mas acima disso me parece um documento essencial para quem quiser trilhar uma reflexão histórica sobre o domínio de determinados saberes em detrimento de outros. Com Um Jardim Patológico Ouyama nos oferece subsídios para pensar as dinâmicas de poder atreladas aos saberes e nos interesses que, por caminhos curiosos, podem levar à construção de uma instituição como um hospício.

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Vale mencionar que o autor passa bem longe de um discurso de denúncia, o que coloca sua obra longe do Holocauso brasileiro (Geração Editorial, 2013) de Daniela Arbex, cujo principal foco é expor as mazelas e horrores perpetrados no Hospício Colônia, de Barbacena – MG. Diferente da obra de Arbex, Ouyama suscita diversas dúvidas e aponta caminhos para sua compreensão, sem nunca fechar perspectivas.

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Child of Light

Beware of the night, child of light.

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Child of Light é um jogo que deixa saudades.

Lançado em 2014 pela Ubisoft e desenvolvido pela Ubisoft Montreal, trata-se de um belíssimo jogo de plataforma. A trilha sonora é um ápice por si e faz jus à arte do jogo, que nos causa vontade de passear pelos cenários sem compromisso com avançar na trama. Ou ainda, de voltar ao jogo mesmo após tê-lo terminado.

Descrito como um “poema jogável” (playable poem), todas as falas são rimadas e o enredo se desenvolve como um legítimo conto de fadas. Aurora é a personagem principal, uma criança graciosa e boa, e sua missão é reaver o sol, a lua e as estrelas para que assim possa voltar para casa e, finalmente, para seu pai.

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Como não poderia deixar de ser, Aurora é encantadora. Com esvoaçantes cabelos ruivos e pés descalços, a menina de vestido amarelo percorre os cenários com impressionante fluidez de movimentos. Acompanhada do fiel Igniculus, uma bolinha de luz que repetidas vezes salva o dia, avançamos nos passos da luta contra a rainha má Umbria, a fim de terminar a noite que se abateu sobre Lemuria.

A história se passa entre esse mundo mágico, Lemuria, e a Áustria de 1895, e conta com vários personagens que nos são apresentados conforme avançamos na trama. Promessas não cumpridas, traição e desafetos entre os personagens dão corpo ao enredo, nos levando realmente de volta ao universo dos Grimm.

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Para além de um poema, o jogo é também um épico. Inúmeras batalhas são travadas contra diversos inimigos, nos moldes clássicos dos turnos de RPG. Com as lutas, os personagens avançam rapidamente nas árvores de habilidades – mas confesso que, pessoalmente, preferia que houvesse menos embates físicos.

O jogo está disponível em praticamente todas as plataformas e é garantia de boas horas de diversão e maravilhamento : )

Miya-san

Esta semana o grande mestre Hayao Miyazaki fez 74 anos, então nada mais justo do que dedicar este post a ele.

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No entanto, o post é sobre ele através do documentário The Kingdom of Dreams and Madness (2013), dirigido pela quase-novata Mami Sunada. Envolvida com documentários desde 2006, esse é o segundo filme que dirige – e roteiriza e filma e edita.

Logos nos primeiros segundos do longa, temos a sensação de estar vendo um desenho, só que de verdade. Paisagens naturais nos são apresentadas, então adentramos um prédio bem iluminado onde somos quase recebidos por um grande Totoro de pelúcia. Enquanto isso, uma suave voz em off nos conta sobre o que veremos.

Ao longo das quase 2 horas de filme, Sunada nos leva para dentro do estúdio Ghibli, onde vemos pessoas trabalhando com lápis, papel e pincéis – o modo Ghibli de se fazer animação em pleno século XXI. Aprendemos que Miyazaki trabalha todos os dias das 11h às 21h, inclusive sábados e feriados, que toma Yakult diariamente e fuma muito. Com sorrisos e risadas de sobra, é um homem de decisões rápidas, cuja rotina diária envolve necessariamente observar o céu, a natureza e as pessoas, e cumprimentar as crianças no berçário.

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O filme foi rodado em uma época muito feliz, tempo do desenvolvimento e conclusão do último filme do diretor – The Wind Rises. Miyazaki não escreve roteiros, desenha direto storyboards, e é esse desenhar que acompanhamos dia após dia. Observar seu trabalho, que é costurado com lembranças de seu pai e de sua infância no tempo da guerra, pouco a pouco nos dá a sensação de conhecer mais Miya-san, e entender melhor sua obra.

Além dele, o documentário nos mostra de perto a rotina de Toshio Suzuki, o produtor herói da Ghibli, e nos conta as fofocas a respeito de Isao Takahata – o trio alma do estúdio.

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Com um quê de melancolia e reprovação da pós-modernidade, Miyazaki pergunta se os filmes ainda têm algum sentido ou alguma valia. Acredito que ele como personagem, e Mami Sunada, como diretora, nos respondem essa pergunta – e a resposta dada é absolutamente positiva : )

Arigato, Miya-san!

Leo’s Fortune

Para além de Angry Birds e Plants vs. Zombies, o mundo dos jogos para celular nunca me chamou muita atenção, mas Leo’s Fortune abre um capítulo totalmente novo (para mim) a respeito do assunto.

Trata-se de um jogo sueco, produzido pela parceria entre 1337 & Senri, e aparentemente um grande sucesso de 2014.

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O personagem é essa simpática e bigoduda bola de pelos, o Leopold, e a aventura consiste em recuperar sua fortuna, que lhe foi roubada. O enredo e os demais personagens nos são apresentados conforme avançamos, e o desfecho da história é de fato inesperado.

O primeiro grande mérito do jogo é seu visual. Os cenários são incríveis, e ao longo das fases percorremos campos, mares e cavernas rumo a entranhas industriais, progressivamente steampunk.

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O segundo grande mérito do jogo é o som. As trilhas são ótimas, e o desenho de áudio é impressionante. Sendo assim, é muito fácil se afeiçoar ao jogo logo de cara, pois simplesmente ver os cenários e escutar as músicas já vale a pena. O mérito final, e talvez principal de Leo’s Fortune, é sua jogabilidade. A cada momento somos apresentamos a novos desafios no que se refere ao manejo do personagem. Morrer é praticamente uma regra, morre-se MUITAS vezes, no entanto isso não representa nenhuma perda prática, pois sempre retomamos do momento prévio à morte para insistir e vencer os obstáculos. Essa estrutura de desafio-repetição-conquista nos é apresentada incontáveis vezes e surpreendentemente o resultado é sempre revigorante (ainda que às vezes acompanhado de ódinhos).

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A dificuldade apresentada nas fases dá-se por puzzles ao melhor modo clássico, de se usar os objetos do cenário para conseguir avançar; ou através da precisão de movimento requerida para sobreviver e seguir. O melhor (!?) é que cada vez que passamos por aqueles momentos em que temos a sensação de que nunca mais conseguiremos repetir aquela façanha… o jogo nos exige que a repitamos. Mais 3 vezes. Emoção é parte integral de se jogar Leo’s Fortune : )

Recomendo fortemente o trailer live action em plano sequência do jogo!

Kirsty Mitchell

Alguns meses atrás, quando descobri o perfil da Kirsty Mitchell no facebook, sentia uma tristeza enorme ao ver suas fotos. Tristeza pelo tanto de beleza que ela consegue colocar em um só frame – são fotos perfeitas, com personagens incríveis, com tanta magia… era chocante.

The Storyteller

The Storyteller (Wonderland)

Recentemente ela anunciou que a série Wonderland havia chegado ao fim, após 5 anos contínuos de produção. Então passei os últimos dias lendo os diários que registram todo o processo de pensar e realizar essas fotos impressionantes.

Em algum sentido, tudo começa em 2007 quando Kirsty descobre a fotografia e, através dela, um novo mundo. Um mundo mais interessante, mais intenso que aquele visto sem a lente. Em 2008 ela monta um blog com o intuito de não esquecer as coisas que está vivendo naquele momento – não fica claro quais são as circunstâncias específicas, mas fica bem claro que ela não está bem, e que tudo se agrava no ano seguinte quando sua mãe é diagnosticada com tumor cerebral. O nome do blog é bastante sugestivo: fractured thoughts.

Inicialmente entramos em contato com suas fotografia de rua, nas quais Kirsty se encontra nos olhares perdidos de desconhecido. Depois existe uma série de autorretratos, Nocturne, que são realizados durante a doença da mãe e continuam após seu falecimento. É um momento de experimentação com a câmera e de fuga da dura realidade que a cerca. Um momento em que o luto quase a sufoca, em que é apenas através das fotos que ela consegue expressar seus sentimentos.

What remains

What remains (Nocturne)

O primeiro trabalho que Kirsty realiza com uma modelo é na série My Angel, em que uma amiga se dispõe a posar para ela. Trata-se de um momento de desenvolvimento, pois é a primeira vez que ela tem a possibilidade de inserir, e confundir, o objeto da fotografia à natureza – característica que permanecerá em toda a série Wonderland.

A Personal Dawn (My Angel)

A Personal Dawn (My Angel)

É bastante interessante acompanhar o desenrolar desse processo, pois desde o início vemos elementos que são chave para a fotógrafa. Os olhares vagos, a melancolia subjacente à magia e a fusão com a natureza são um pouco da alma de seu trabalho.

Nesse meio tempo, Kirsty conhece a maquiadora Elbie Van Eeden, que vê a mágica das ideias da fotógrafa e a ajuda a executá-las. Essa parceria também está na alma da série, pois se estabelece entre as duas um vínculo de amizade e apoio imprescindíveis para perseverar nos obstáculos do trabalho.

The ghost swift

The Ghost Swift (Wonderland)

Kirsty é fashion designer, e após 11 anos de carreira (dos quais, 2 de Wonderland) ela abandona seu emprego para dedicar-se integralmente à fotografia. Esse background é fundamental para entender suas imagens, pois tudo que vemos nelas é real. Todas as camadas de tecido, as incontáveis pétalas, os livros, as borboletas… Tudo. E tudo é feito à mão – 99% dos casos pelas mãos dela própria. Acredito que apenas tantos anos trabalhando com a indústria da (alta?) moda teria formado uma base tão sólida de refinamento, acabamento e capacidade de realização.

Como muitas pessoas achavam que elementos das imagens eram geradas digitalmente, muitas páginas do diário são dedicadas a explicar e demonstrar a produção de tudo que se vê. O resultado é uma leitura um pouco cansativa, mas impressionante da perspectiva das habilidades da artista.

The queen's centurion

The Queen’s Centurion (Wonderland)

Em uma entrevista Kirsty comenta que as pessoas lhe perguntam sobre porque fazer tudo manualmente, e acho que esse processo está diretamente relacionado com a intenção de tornar esse sonho, esse refúgio, de fato real. No início da série ela comenta da surpresa e do choque de, ao olhar pelo viewfinder, dar de cara com um personagem de conto de fadas totalmente real e crível. Era realmente a possibilidade de viver outro mundo, ainda que por poucos momentos.

Para além dos figurinos e objetos, a maior parte da série é fotografada em ambientes naturais. Isso implica em: diárias longuíssimas, muito esforço para transportar os figurinos e objetos através de lama e neve, e muita emoção… A luz perfeita e inesperada, o clima errado que se mostra ideal, o vento que torna a cena incrível, e assim por diante. Em um tempo de “corpos dóceis e frágeis”, é realmente admirável todo o esforço físico implicado nas semanas e meses necessários para a preparação de cada uma foto.

She'll Wait For You In The  Shadows Of Summer

She’ll Wait For You In The Shadows Of Summer (Wonderland)

De maneira similar, em tempos de imediatismos malucos, cabe mencionar que para a realização da foto acima foi necessário esperar 6 meses para chegar o tempo, clima e luz corretos, e para a natureza crescer ao redor do barco. Depois mais 2 semanas de preparação da locação e uma diária de 18 horas para essa uma foto. Vale a pena ver o making of dela!

Acima de tudo, vale a pena ver o site oficial, com toda a calma do mundo: http://kirstymitchellphotography.com/

Kirsty Mitchell fez essa série para sobreviver ao luto de sua mãe, para ter um mundo mágico palpável ao qual recorrer nessa fase de tanta dor. Mas além disso, ela realizou sonhos não sonhados, como o tamanho reconhecimento e premiação da série, e tornou-se capaz de aceitar a natureza como ela é. Um dia chove, outro faz sol… primavera, verão, outono, inverno. E primavera de novo.

Ernest et Célestine

Ernest et Célestine (2012) é uma animação co-produzida pela França e Bélgica, e triplamente dirigida por Stéphane Aubier, Vincent Patar e Benjamin Renner. O filme é baseado na série de livros infantis da belga Gabrielle Vincent, e o resultado é uma história leve e divertida.

O enredo gira em torno do urso Ernest e da ratinha Célestine, e da maneira como a amizade proibida deles coloca em questão a sociedade em que vivem. Para além disso, o filme trata do fazer arte e de ser artista, e do quanto nos parecemos com aqueles que consideramos nossos inimigos.

O verdadeiro ponto alto do filme é o seu visual. A impressão que temos é de que estamos realmente vendo um livro infantil dos anos ’80 em movimento. Fundos em aquarela, texturas em evidência, traços minimalistas… a vontade é de apenas VER o desenho, sem se ater às legendas. Outro belo aspecto é a trilha sonora, que ajuda a nos levar a outro tempo – um tempo handmade, sem excessos e com menos barulho.

Ernest et Célestine é um filme delicado, que não exige nada do espectador, e que ao fim nos deixa com a sensação de que a poesia pode ser, de fato, um desenho.

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Ps. Eu sou contra ver trailer ou making of antes de ter visto o filme, pois acho que eles entregam elementos que são muito mais legais se vistos pela primeira vez durante o filme, mas caso você não seja assim xiita, ou já tenha visto o desenho, recomendo este vídeo do Creators Project.

Wolf Children

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Logo nos primeiros segundos de Wolf Children (2012) uma voz feminina nos diz: “Talvez isso te pareça um conto de fadas. Inclusive pode ser que riam dele. Dirão que algo tão estanho é impossível. Mas definitivamente esta é a história da minha mãe. A pessoa por quem ela se apaixonou era um homem lobo”.

Wolf Children é um filme tão delicado quanto chocante, e o choque não se deve a reviravoltas mirabolantes e rocambolescas, mas à profundidade emocional que consegue atingir. Os personagens principais são Hana e seus filhos, Yuri e Ame, e ao longo de quase 120 minutos o diretor Mamoru Hosoda nos leva pela mão através do processo de crescer – e escolher quem se quer ser. Afinal, “ser adulto é saber a que mundo se pertence”, nos diz Hana.

Para além disso, o filme é um apelo à comunidade. Em um universo sem internet e gadgets modernosos, Hosoda nos mostra o quanto dependemos de nossos pares para aprendermos, vivermos, e, em algum sentido, sobrevivermos.

Este é o primeiro filme que vi de Hosoda e confesso que foi amor à primeira vista. Wolf Children é um filme emocionante, e está bem longe de ser apenas um conto de fadas. Wolf Children é um conto sobre viver.

Além de uma obra esteticamente belíssima, trata-se de filme tocante que dever ser visto e sentido : )

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