O Acaso e a Borboleta

Hoje acordei lembrando de um curta que vi anos atrás na Cinemateca de Curitiba. A princípio não lembrava o nome, mas lembrava que a trilha sonora era do Guto Teixeira, cujo trabalho admiro muito.

Depois de um pouco de pesquisa encontrei O Acaso e a Borboleta, criado e dirigido por Tiago Américo e Fernanda Correa. A animação em rotoscopia foi realizada sem verba e ganhou (ao menos) 11 prêmios, dentre eles Prêmio Aquisição no Anima Mundi carioca e 2º lugar no Anima Mundi paulista, como melhor animação brasileira. Também ganhou um prêmio de melhor trilha sonora, que eu acho muito justo.

Espero que apreciem essa suave e breve história sem dialogos 😉

Forbrydelsen

Bom, em plena loucura pelo retorno de Game of Thrones vou falar sobre a sensacional série de suspense dinamarquesa Forbrydelsen. A série trata do assassinato de uma jovem de 19 anos, sua investigação e seus desdobramentos políticos, afetivos e sociais. A personagem principal é Sarah Lund, a obsessiva investigadora que bebe cerveja na garrafa no fim do dia e tem o armário limitado a poucas e parecidas roupas. Sarah Lund é dessas personagens que me causam admiração e espanto – e alegria por não conhecer ninguém como ela. Lund abre mão de absolutamente tudo para resolver o caso, e faz isso com chocante obstinação.

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Ao redor da investigação do caso se desdobra um cenário político delicado, pois a história acontece durante as pré-eleições de Copenhagen, e eis que um dos candidatos se vê potencialmente envolvido na história. Além disso existe o complicador de Lund estar a momentos de se desligar da polícia dinamarquesa, se mudar para a Suécia, e começar uma suposta vida pacata ao lado de seu namorado… O resultado disso é uma sensação de urgência pela resolução do caso que se complica a cada dia, representados nos 20 episódios.

Acredito que se fosse ver um episódio por semana me irritaria com a série pois as reviravoltas são reiteradas, nos deixando (assim como a Lund e sua equipe) com a constante sensação de termos respostas escapando por entre os dedos. Todos os personagens guardam segredos, e na sua necessidade por privacidade a trama se complica a cada nova informação. Afinal o que é legítimo? Que outros dados são necessários para interpretar corretamente as novas informações? De uma maneira muito interessante Forbrydelsen nos mostra o quanto somos parciais em nossas compreensões, delineando a gravidade das consequências de se omitir ou manipular informações. E ainda, o quão manipuláveis as informações podem ser.

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A série foi produzida pela DR, canal público da televisão dinamarquesa, foi veiculado originalmente em 2007 e representou uma grande novidade no quesito exportação – por ser um conteúdo em língua escandinava, poucos países se interessavam pelas produções da DR. No entanto, ao aliar narrativa dupla (investigação entremeada por questões sociais e éticas) com linguagem cinematográfica, Forbrydelsen produziu um impacto muito representativo no mercado de “legendados”, abrindo portas para outras séries produzidas posteriormente.

Em 2011 a AMC fez a versão americana da história sob o título The Killing, sobre a qual ouvi falar muito bem, mas confesso que entre ver conteúdo em dinamarquês ou inglês prefiro a primeira opção mil vezes. Além da língua, acho sensacional a seleção de elenco com cara de gente normal, com rugas, verrugas e sobrancelhas memoráveis. Para minha eterna surpresa, a série original foi veiculada na +Globosat em 2012, e agora está integralmente disponível no Netflix.

Existem outras duas temporadas que ainda não assisti, mas confesso que os 20 episódios inicias me causaram um impacto tão bem resolvido que não sei se (ou quando) verei o resto. Sarah Lund é uma personagem que merece ser conhecida, bem como o triste caso de Nana Birk Larsen.

 

Never Alone

Never Alone, ou Kisima Inŋitchuŋa, é um jogo de plataforma muito bonito desenvolvido em conjunto com Iñupiats, ou seja, indivíduos nativos do Alasca que fazem parte do grupo étnico que poderíamos erroneamente chamar de esquimós. Explico: o termo esquimó significa “comedor de carne crua” e é renegado pelos indivíduos desses povos, que preferem se intitular Inuit (que significa “o povo/as pessoas”), que é o grupo de habitantes indígenas da região ártica do Canadá, Alasca e Groelândia. Especificamente os Inuit que habitam o Alasca são os Iñupiats.

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Em Never Alone encontramos um jogo com gráficos muito bonitos imersos em neve. Nuna é a pequena-grande heroína da história, e o jogador deve alternar o controle entre Nuna e sua mais-que-fofíssima raposa do ártico para resolver os puzzles que se apresentam. O adversário mais presente no jogo é justamente o tempo, suas intempéries, e os animais que habitam aqueles cenários, mas o real vilão é um homem horroroso que, conforme aprendemos nos extras do jogo, pensa em si antes de pensar nos demais, e é isso que o torna um perigo.

Conforme exploramos o cenário encontramos pequenas corujas que, caso sejam alcançadas, liberam uma série de mini-documentários em que alguns Iñupiats nos contam sobre suas tradições, costumes, músicas e alguns causos excelentes, como a ideia de que não se pode sair numa noite de aurora boreal com a cabeça descoberta sob pena de tê-la arrancada; ou o terror de se ver sobre um pedaço de chão que se desprendeu do continente e começa a navegar sem rumo sobre a água gélida – junto com duas crianças.

A narrativa do jogo é incrível, alternando gráficos 2D super étnicos com os gráficos 3D da história em que atuamos ativamente. O enredo é fiel à mitologia e cosmogonia Iñupiat e é todo narrado em língua nativa, o que faz com que tudo seja MUITO mais interessante.

Embora o jogo tenha sido lançado originalmente para PC eis que encontramos alguns bugs no decurso da história. Eventualmente a personagem trava no cenário, ou talvez sua boleadeira não funcione… algumas vezes tive que sair do jogo e entrar novamente por causa desse tipo de questão, mas nada que atrapalhe significativamente.

Never Alone é de 2014, foi desenvolvido pela Upper One Games em conjunto com a E-Line Media e contou com a participação de aproximadamente 40 Iñupiats. De lá pra cá já ganhou pelo menos 5 prêmios e foi disponibilizado nas mais variadas plataformas. Levei cerca de 6 horas para completar o enredo, e foram horas de excelente entretenimento. Recomendo!

Em conjunto com o Never Alone é possível comprar o Fox Tales, que é uma expansão do jogo. Nele temos a chance de conhecer outras lendas tradicionais, mas confesso que gostei mais do jogo original 😉

 

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Midnight Radio

Meses atrás me deparei com essa tirinha no 9gag e fiquei besta. Acabei não salvando o arquivo e depois, quando quis ler novamente, eis que descobri algumas coisas sobre os suscintos Ehud Lavski, que escreveu a história, e Yael Nathan, que assina os desenhos.

Ambos são israelenses. Ehud é, segundo ele mesmo, um roteirista premiado e game designer que eventualmente cria HQs. Yael, segundo ela mesma, é designer e ilustradora, além de ser uma ávida gamer que no seu tempo livre trabalha com HQs e toca bateria.

Desde a publicação de Midnight Radio no El Comics, tumblr do Ehud em fevereiro/16, a tirinha já circulou muito e veja você que dignidade que ninguém menos que Neil Gaiman compartilhou a história, denominando-a de “Lovely”. Epic win.

Enjoy!

 

MIDNIGHT RADIO

Machinarium

Ok, antes de falar sobre Machinarium é preciso falar sobre Amanita Design, a empresa que assina esse jogo sensacional (e outros).

A Amanita é, segundo eles mesmos, um pequeno estúdio independente de desenvolvimento de jogos, localizado na República Tcheca. A empresa funciona desde 2003, quando lançou o fofíssimo Samorost, projeto de graduação em Artes do fundador Jakub Dvorský. Três anos depois foi lançado o Samorost 2, agora com colaboração do animador Václav Blín, e desde então uma série de glórias têm sido lançadas por uma equipe de 9 pessoas.

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O primeiro Samorost pode ser jogado on line gratuitamente, e o segundo conta com uma demo free – são jogos point-and-click (yes!) bem curtinhos, com visual lindo e puzzles complicadinhos. Recentemente a empresa lançou o Samorost 3 (yes!!!), mas isso vai para um post futuro!

Enfim, tudo isso pra chegar em Machinarium, o primeiro jogo longo da empresa, e também o primeiro jogo a estar disponível para diversas plataformas. Ao todo levei 12 horas para concluir essa história em que ajudamos o robô Joseph a resgatar sua namorada, salvar a cidade e se livrar de um grupo de malfeitores. Mas não se engane: não se trata de um jogo de ação! De emoção sim, mas especialmente de MUITO raciocínio lógico. Os puzzles são realmente complicados, demandam observação afinada, paciência, repetição e… lógica. Em muitos sentidos ele me lembrou Grim Fandango, mas acho que sofri mais com o jogo da LucasArts do que com Machinarium.

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O visual é, como sempre, sensacional. Todos os cenários têm um aspecto de decadência orgânica, com texturas vegetais, personagens incríveis e uma trilha sonora super agradável. O cuidado técnico da Amanita chama atenção em todos os momentos do jogo, desde a maneira como o enredo nos é apresentado à composição de cada espaço. Considero especialmente legais os robôs músicos, o robô dançante que encontramos sob um chafariz, e o giga-robô-policial com seu ursinho rosa :’)

Machinarium é uma obra a ser jogada com paciência, persistência e muita alegria 😉

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Paradise has many names

Em 2012 o Yahoo! lançou Electric City, uma série norteamericana em animação criada&produzida pelo Tom Hanks. Ao todo são 90 minutos de enredo divididos em 20 episódios. Na época o Yahoo! propagandeava a série como a primeira a ser lançada exclusivamente para a web mas, ainda que os episódios sejam curtos, a internet não era lá muito vídeo-friendly e acabei desistindo de acompanhar pelo quinto episódio.

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Recentemente tive vontade de saber como terminava a história e, olha, deu trabalho conseguir a tal série novamente. Pelo que entendo ela foi uma introdução ao jogo Electric City: The revolt, que pode ser baixado com facilidade nas app-stores da vida. No aplicativo que baixei tem todos os episódios disponíveis… só que não. Consta “Coming soon – Avaliable on 17/07/12” (!!), e no acesso ao jogo ele me direciona para um trailer igualmente desatualizado…!

Anyway, a série se passa em um futuro pós-apocalíptico em que a humanidade conseguiu se reorganizar em um agrupamento urbano onde energia elétrica é um privilégio a ser utilizado de maneira controlada. A manutenção da cidade depende de um certo rigor em relação ao uso dessa energia, pois ela é escassa, no entanto começam a aparecer diversos focos de uso indevido de energia.

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Em últimas a série trata do acesso à informação e seus usos e suscita questões a respeito de liberdade individual em relação a uma estrutura social fragilizada (mais por tradição e medo do que por fato, segundo me parece). Ao longo dos episódios vamos rapidamente conhecendo as diferentes facetas de um mesmo problema, enquanto os personagens se desenvolvem de maneira bastante interessante. Brincando com o tempo a série transita pelos caminhos que levaram os personagens a serem quem são no momento atual da história, com highlights para a anciãs que formam a intelligentsia de Electric City.

Sobre essas anciãs: trata-se de um grupo de senhoras que tricotam constantemente e se reúnem com frequencia para discutir o bom andamento da sociedade. Elas nos são apresentadas como as principais sobreviventes da hecatombe e, agora, com agentes secretos a seu serviço, atuam como consideram necessário para a boa manutenção das coisas.

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A animação é toda em 2D (yes!) e constitui um bom entretenimento!

Para os curiosos, segue o trailer 😉

 

Strange indeed

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Hoje vou falar sobre Life is strange, jogo lançado em 2015 cuja história é dividida em 5 episódios sequenciais. Pra começo de conversa preciso dizer que se trata de um jogo que não me atraía em nada: não é em plataforma, os gráficos são muito mais realistas do que o que eu aprecio, não há bichos mágicos e a jogabilidade é complexa (pros meus padrões de point-and-click). No entanto…. que jogo. Que jogo!!!

O game levou 2 anos para ser desenvolvido pela francesa Dontnod Entertainment, utiliza engine Unreal 3 e é distribuído pela Square Enix. Eu joguei no PC, mas ele também está disponível para Play Station e Xbox.

O enredo gira em torno de Maxine, uma estudante de fotografia que subitamente descobre a capacidade de voltar o tempo. O jogo demanda bastante exploração de cenários (que adoro) e é baseado em escolhas que afetam diretamente o decurso da história. Não vou entregar nenhum spoiler, então digo apenas que desenvolvimento do enredo é surpreendente e inteligente. Muitas vezes a boa observação dos cenários é o que define o sucesso ou fracasso das escolhas tomadas, e os fracassos podem ser bem tristes… Aliás, existem lances chocantes que independem das escolhas do jogador, o que contribui para a densidade da história. A dublagem do jogo é incrível, e ajuda muito na sensação de proximidade com os personagens – ao fim, parece que conhecemos de verdade aquelas pessoas, ainda que não com aqueles rostos.

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Ao todo levei 16 horas para completar os 5 episódios, mas o Steam indica que ainda faltam várias conquistas que passaram batidas. Algo que me pareceu muito curioso no jogo foi a sensação após o ter terminado – aquela tristeza de quando terminamos um bom livro. Aquele gostinho solitário de não ter mais aquele personagem para acompanhar, nem sua história mais para seguirmos… Mas se por um lado o jogo deixou saudade, por outro a história é muito intensa para ser revisitada tão cedo. Que jogo.

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Até o momento Life is strange já ganhou mais de 10 prêmios, e ainda estamos aguardando os resultados de 2016.

Recomendo fortemente 😉