Kirsty Mitchell

Alguns meses atrás, quando descobri o perfil da Kirsty Mitchell no facebook, sentia uma tristeza enorme ao ver suas fotos. Tristeza pelo tanto de beleza que ela consegue colocar em um só frame – são fotos perfeitas, com personagens incríveis, com tanta magia… era chocante.

The Storyteller

The Storyteller (Wonderland)

Recentemente ela anunciou que a série Wonderland havia chegado ao fim, após 5 anos contínuos de produção. Então passei os últimos dias lendo os diários que registram todo o processo de pensar e realizar essas fotos impressionantes.

Em algum sentido, tudo começa em 2007 quando Kirsty descobre a fotografia e, através dela, um novo mundo. Um mundo mais interessante, mais intenso que aquele visto sem a lente. Em 2008 ela monta um blog com o intuito de não esquecer as coisas que está vivendo naquele momento – não fica claro quais são as circunstâncias específicas, mas fica bem claro que ela não está bem, e que tudo se agrava no ano seguinte quando sua mãe é diagnosticada com tumor cerebral. O nome do blog é bastante sugestivo: fractured thoughts.

Inicialmente entramos em contato com suas fotografia de rua, nas quais Kirsty se encontra nos olhares perdidos de desconhecido. Depois existe uma série de autorretratos, Nocturne, que são realizados durante a doença da mãe e continuam após seu falecimento. É um momento de experimentação com a câmera e de fuga da dura realidade que a cerca. Um momento em que o luto quase a sufoca, em que é apenas através das fotos que ela consegue expressar seus sentimentos.

What remains

What remains (Nocturne)

O primeiro trabalho que Kirsty realiza com uma modelo é na série My Angel, em que uma amiga se dispõe a posar para ela. Trata-se de um momento de desenvolvimento, pois é a primeira vez que ela tem a possibilidade de inserir, e confundir, o objeto da fotografia à natureza – característica que permanecerá em toda a série Wonderland.

A Personal Dawn (My Angel)

A Personal Dawn (My Angel)

É bastante interessante acompanhar o desenrolar desse processo, pois desde o início vemos elementos que são chave para a fotógrafa. Os olhares vagos, a melancolia subjacente à magia e a fusão com a natureza são um pouco da alma de seu trabalho.

Nesse meio tempo, Kirsty conhece a maquiadora Elbie Van Eeden, que vê a mágica das ideias da fotógrafa e a ajuda a executá-las. Essa parceria também está na alma da série, pois se estabelece entre as duas um vínculo de amizade e apoio imprescindíveis para perseverar nos obstáculos do trabalho.

The ghost swift

The Ghost Swift (Wonderland)

Kirsty é fashion designer, e após 11 anos de carreira (dos quais, 2 de Wonderland) ela abandona seu emprego para dedicar-se integralmente à fotografia. Esse background é fundamental para entender suas imagens, pois tudo que vemos nelas é real. Todas as camadas de tecido, as incontáveis pétalas, os livros, as borboletas… Tudo. E tudo é feito à mão – 99% dos casos pelas mãos dela própria. Acredito que apenas tantos anos trabalhando com a indústria da (alta?) moda teria formado uma base tão sólida de refinamento, acabamento e capacidade de realização.

Como muitas pessoas achavam que elementos das imagens eram geradas digitalmente, muitas páginas do diário são dedicadas a explicar e demonstrar a produção de tudo que se vê. O resultado é uma leitura um pouco cansativa, mas impressionante da perspectiva das habilidades da artista.

The queen's centurion

The Queen’s Centurion (Wonderland)

Em uma entrevista Kirsty comenta que as pessoas lhe perguntam sobre porque fazer tudo manualmente, e acho que esse processo está diretamente relacionado com a intenção de tornar esse sonho, esse refúgio, de fato real. No início da série ela comenta da surpresa e do choque de, ao olhar pelo viewfinder, dar de cara com um personagem de conto de fadas totalmente real e crível. Era realmente a possibilidade de viver outro mundo, ainda que por poucos momentos.

Para além dos figurinos e objetos, a maior parte da série é fotografada em ambientes naturais. Isso implica em: diárias longuíssimas, muito esforço para transportar os figurinos e objetos através de lama e neve, e muita emoção… A luz perfeita e inesperada, o clima errado que se mostra ideal, o vento que torna a cena incrível, e assim por diante. Em um tempo de “corpos dóceis e frágeis”, é realmente admirável todo o esforço físico implicado nas semanas e meses necessários para a preparação de cada uma foto.

She'll Wait For You In The  Shadows Of Summer

She’ll Wait For You In The Shadows Of Summer (Wonderland)

De maneira similar, em tempos de imediatismos malucos, cabe mencionar que para a realização da foto acima foi necessário esperar 6 meses para chegar o tempo, clima e luz corretos, e para a natureza crescer ao redor do barco. Depois mais 2 semanas de preparação da locação e uma diária de 18 horas para essa uma foto. Vale a pena ver o making of dela!

Acima de tudo, vale a pena ver o site oficial, com toda a calma do mundo: http://kirstymitchellphotography.com/

Kirsty Mitchell fez essa série para sobreviver ao luto de sua mãe, para ter um mundo mágico palpável ao qual recorrer nessa fase de tanta dor. Mas além disso, ela realizou sonhos não sonhados, como o tamanho reconhecimento e premiação da série, e tornou-se capaz de aceitar a natureza como ela é. Um dia chove, outro faz sol… primavera, verão, outono, inverno. E primavera de novo.

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